Taxação dos EUA pode ter impactos na Zona Franca de Manaus? Especialista avalia cenário

Redação Portal Norte

O anúncio da taxação de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos acendeu alertas no cenário político e econômico, principalmente na Zona Franca de Manaus.

No entanto, o analista político Davidson Cavalcante acredita que os impactos diretos sobre o Polo Industrial devem ser limitados.

“Particularmente, não vejo que as tarifas do governo Trump atinjam a Zona Franca de Manaus diretamente. A sustentação do Polo Industrial não depende prioritariamente dos Estados Unidos, mas de países como China, Coreia do Sul e Índia. Não há um unilateralismo comercial com os EUA que nos torne vulneráveis nesse sentido”, afirmou Cavalcante.

Possíveis impactos da taxação na Zona Franca de Manaus

Segundo ele, o risco maior está no campo político. Para o analista, a medida pode travar novos investimentos no país, principalmente de empresas com vínculos comerciais com os Estados Unidos.

Tarifas para produtos do Brasil – Fotos: Jim Watson/AFP e Marcelo Camargo/Agência Brasil.

“O problema está em eventuais embargos ou tarifas extras sobre empresas que tenham acordo com o governo americano e que queiram investir aqui. Isso pode gerar insegurança e afastar investidores”, disse.

Além do impacto econômico, Cavalcante destaca a possibilidade de um agravamento da polarização política no Brasil.

“Esse episódio pode alimentar narrativas radicais tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda. Há um risco de que essa taxação seja usada como argumento de interferência externa nas eleições, o que pode inflamar o debate eleitoral de 2026”, alertou.

Sobre a reação do governo Lula, que acenou com a possibilidade de aplicar medidas de reciprocidade, Cavalcante sugere cautela.

Para ele, o ideal seria buscar diálogo e acordos diplomáticos para evitar prejuízos a brasileiros que moram, investem ou mantêm negócios nos EUA.

“Não é inteligente ceder a tudo, mas também não é eficaz revidar sem estratégia. O Brasil deve reforçar laços com outros mercados emergentes, como China, Índia e União Europeia, para mostrar que não depende exclusivamente dos Estados Unidos”, avaliou.

Posicionamentos locais

Ao comentar posicionamentos locais, como o do deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM), que culpou Lula pela crise, Cavalcante pondera que se trata mais de um discurso voltado à base eleitoral.

Alberto Neto se pronuncia sobre taxações
Alberto Neto se pronuncia sobre taxações – Fotos: Mario Angra/Câmara dos Deputados e © Marcelo Camargo/Agência Brasil.

“É um discurso para a bolha da direita. A Zona Franca de Manaus, na prática, não será comprometida diretamente. O que pode acontecer é a elevação de preços de produtos americanos aqui, como eletrônicos e itens patenteados, além da desaceleração de novos investimentos”, explicou.

Por fim, o especialista reforça que o caminho mais sensato é o diálogo.

“Não é inteligente cortar relações com os EUA. Estamos no mesmo continente, e o Brasil não pode se isolar. O mais sensato é sentar à mesa, negociar e buscar flexibilização das tarifas. Até porque, no fim das contas, é com Trump que o governo terá que lidar”, concluiu.