Coluna do Carlos Caldeira: Natal vermelho: Havaianas, Heineken, Tang e o medo de virar à direita

Redação Portal Norte

O Natal chegou, mas para a extrema direita brasileira ele veio pintado de vermelho, e não é por causa do Papai Noel. Nas últimas semanas, as redes sociais viraram palco de uma sequência quase pedagógica de pânicos morais, todos inaugurados depois da campanha das Havaianas, que conseguiu o feito raro de transformar uma sandália de borracha em ameaça ideológica.

Daí foi só ladeira abaixo.
Ou, para os mais sensíveis, ladeira perigosamente à esquerda.

No meio da confusão, alguém resolveu olhar para a geladeira e fez uma descoberta estarrecedora: a cerveja Heineken tem uma estrela vermelha no rótulo.

Pronto, bastou isso.

Não importa que a estrela esteja lá desde o século XIX, que seja símbolo histórico da marca ou que exista muito antes de qualquer Guerra Fria. O que importa é vermelha, logo, suspeita, logo, comunista, logo, parte de um complô global para doutrinar o brasileiro bêbado no churrasco de domingo.

Imagino a cena:

 “Amor, pega uma Heineken?”
“Tá maluco? Essa aí tem estrela vermelha. Vou de água… se não tiver gás, claro.”

Como se não bastasse, entra em cena o Tang, aquele suco em pó que atravessou gerações sem jamais levantar suspeita. Até agora.
Na embalagem, de forma escancarada, quase provocativa, está escrito:

“FAZ 1 L”

Faz, o verbo mais perigoso do dicionário bolsonarista:
Fazer políticas públicas? Comunismo!
Fazer inclusão? Agenda globalista!
Fazer um litro de suco? Melhor investigar…

E aí vem a dúvida que não quer calar, e que lanço aos meus leitores com toda a responsabilidade jornalística possível:

Se eu beber um Tang corretamente diluído, seguindo as instruções da embalagem, eu viro comunista ou apenas hidratado?”

Para completar o pacote natalino da paranoia, temos as placas de trânsito:

“PROIBIDO VIRAR À DIREITA”

Uma afronta, um ataque direto, uma agressão simbólica à liberdade individual do cidadão conservador que só queria dobrar a esquina e acabou confrontado pelo Estado opressor do Detran.

Falta pouco para alguém acusar o semáforo vermelho de militância.

Enquanto isso, o episódio do SBT com Zezé Di Camargo serviu como cereja do bolo: críticas, boicotes, cancelamentos seletivos e pedidos de desculpa que chegaram atrasados, tortos e com aquele velho cheiro de “fui mal, mas vocês entenderam errado”.

No fim das contas, o Natal de 2025 não é sobre paz, amor ou solidariedade, é sobre vigiar sandálias, sucos, cervejas e placas, porque o verdadeiro perigo não está na desigualdade, na inflação ou na falta de políticas públicas, está na cor da estrela, no verbo da embalagem e na seta do trânsito.

O fato é que, depois da propaganda das Havaianas, a zoação tomou conta das redes, e com razão. O exagero virou piada, o pânico virou meme e a indignação seletiva virou entretenimento.

Pensamento do dia:

“Se a estrela vermelha da Heineken assusta, imagina quando descobrirem que o Papai Noel usa roupa da mesma cor.”