Guajará-Mirim entrou oficialmente para um seleto grupo de cidades brasileiras onde reclamar do abandono público passou a ser sinônimo de burrice, pelo menos segundo a ótica do vice-prefeito Ricardo Lira Maia. Sim, caro leitor: se você cobra asfalto, iluminação, limpeza e respeito, você é apenas mais um “leso reclamando”.
A frase não saiu da boca de um humorista de stand-up, nem de um perfil fake escondido atrás de um celular. Ela veio de dentro da Prefeitura, publicada pelo próprio vice-prefeito em suas redes sociais, num vídeo “bem-humorado”, daqueles que tentam disfarçar incompetência com risadinhas.
O cenário que motivou a revolta popular é conhecido por qualquer morador que se atreva a sair de casa:
cemitério tomado pelo mato (nem os mortos escaparam do abandono), ruas esburacadas que quebram motos, carros e paciência, iluminação pública capenga, distritos como Iata e Surpresa esquecidos no mapa e ramais rurais em estado lastimável. Tudo isso enquanto a gestão municipal parece funcionar no modo “depois a gente vê”.

Diante das cobranças — legítimas, necessárias e amplamente divulgadas por páginas de notícias e portais — o vice-prefeito decidiu reagir. Mas não com trabalho. Não com prestação de contas. Não com ações emergenciais.
Reagiu com deboche institucionalizado.
No dia 8 de janeiro de 2026, Ricardo Lira Maia publicou um vídeo satírico em que um cidadão reclama das condições precárias da cidade e, em tom de chacota, surge a justificativa: uma festa teria sido cancelada porque havia “um monte de leso reclamando”.
A mensagem é clara, ainda que o vídeo tente se esconder atrás do rótulo de “humor”:
👉 quem reclama atrapalha,
👉 quem cobra incomoda,
👉 quem exige o básico merece ser ridicularizado.
Sigmund Freud dizia que o humor é uma defesa do ego. No caso do vice-prefeito, talvez seja a última linha de defesa de uma gestão que não consegue entregar nem o arroz com feijão administrativo. Quando falta resultado, sobra escárnio. Quando falta gestão, entra a piada. Quando falta trabalho, aparece o meme.
Mas há um detalhe que parece ter escapado ao vice-prefeito: Guajará-Mirim não é um grupo de WhatsApp, é uma cidade. E cidade não se governa com vídeo irônico, nem com menosprezo à população.
O humor, historicamente, serve para criticar o poder — não para ser usado pelo poder contra o povo. Quando um gestor público usa a sátira para zombar do cidadão, ele deixa de ser engraçado e passa a ser autoritário em tom de deboche.
Democracia não é silêncio. Democracia é cobrança. E cargo eletivo não é escudo para ironizar quem paga imposto, sofre com o abandono e ainda tem que ouvir que é “leso” por exigir dignidade.
No fim, o recado do vice-prefeito é assustadoramente simples: é melhor calar, aceitar buracos, escuridão e mato alto — do que atrapalhar o cronograma de festas. Só resta uma dúvida: se reclamar é coisa de “leso”, trabalhar é coisa de quem? “Com informações da PÁGINA METE BRONCA GUAJARÁ”.