Antes de se aposentar do STF, Barroso vota pela descriminalização do aborto até 12ª semana

Redação Portal Norte

No encerramento de sua trajetória de 12 anos no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Luís Roberto Barroso defendeu a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação.

O posicionamento, divulgado em sessão extraordinária no plenário virtual nesta sexta-feira (17), marca o segundo voto favorável à liberação do procedimento, reforçando um dos debates mais polêmicos da Corte.

A discussão judicial será levada para o plenário físico, a pedido do ministro Gilmar Mendes, e ainda não tem data prevista para retomada.

Aborto como questão de saúde pública

Em seu voto, Barroso argumentou que a interrupção voluntária da gravidez deve ser tratada sob o ponto de vista médico e social, e não como conduta criminosa. Para ele, o atual sistema penal afeta principalmente mulheres pobres e jovens, que não têm acesso a atendimento adequado nem a informações seguras sobre contracepção.

“O Estado deve oferecer educação sexual, métodos de prevenção e suporte para gestantes em situação de vulnerabilidade, não puni-las”, sustentou o ministro, ao justificar sua posição.

Desigualdade no acesso ao aborto seguro

Barroso destacou que mulheres com melhores condições financeiras conseguem viajar para países onde o procedimento é permitido, como Uruguai, Portugal, Espanha e França, enquanto as mais vulneráveis acabam expostas a riscos graves de saúde.

Segundo ele, “se os homens engravidassem, o aborto já não seria tratado como crime há muito tempo”, reforçando o caráter de desigualdade social e de gênero da legislação atual.

Contexto internacional e legislação brasileira

O ministro comparou o Brasil a outras nações democráticas e desenvolvidas que não criminalizam o aborto nas primeiras semanas de gestação, como Alemanha, Canadá, Austrália, Reino Unido e Itália. Ele defendeu que a legislação brasileira, de 1940, não reflete a realidade contemporânea e fere direitos fundamentais previstos na Constituição, como liberdade, dignidade e igualdade.

Atualmente, o aborto é legal no país apenas em três situações:

  • risco de morte para a gestante;
  • gravidez resultante de estupro;
  • feto anencéfalo.

Próximos passos do julgamento

A discussão foi aberta em 2017, por meio de uma ação do PSOL, que contesta os artigos do Código Penal que criminalizam a interrupção da gravidez. O partido sustenta que as regras violam direitos constitucionais e reforçam desigualdades de gênero.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Aborto (2021), uma em cada sete mulheres até os 40 anos já realizou o procedimento, e 43% delas precisaram de atendimento hospitalar após complicações.

Com o voto de Barroso, o processo será analisado no plenário presencial do STF, que decidirá se o aborto até a 12ª semana deixará de ser considerado crime no Brasil.

A decisão, caso aprovada por maioria, poderá mudar a jurisprudência nacional e redefinir o modo como o país trata a questão da saúde reprodutiva feminina.