Neste sábado (2), às 20h, o Teatro Municipal de Boa Vista receberá o espetáculo “A Solidão por Trás da História”, uma adaptação ousada e sensível de dois contos do escritor Caio Fernando Abreu: “Dama da Noite” e “Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira da Sanga”.
A direção é de Raíssa Alves, que costura as obras com liberdade criativa e respeito à linguagem crua e poética de Caio. A montagem apresenta personagens que transitam entre bares, quartos e lembranças, figuras marcadas por angústias, afetos contidos, frustrações e busca desesperada por pertencimento.
Além disso, homens e mulheres vivem à margem da “roda”, tentando preencher vazios com delírios etílicos, corpos alheios e confissões íntimas durante as cenas.
“A peça é construída de forma fragmentada e poética, mantendo o tom confessional de Caio. O público vai encontrar diálogos entre lembranças, segredos e provocações existenciais”, explica a diretora.
Entre cartas não enviadas e bares noturnos
Um dos protagonistas da peça é Carlos, personagem do ator Cassio Freitas. Carlos tem 33 anos e vive dividido entre a repressão de sua sexualidade e a tentativa desesperada de se encaixar em um mundo que não o reconhece.
“Ele escreve cartas para um amor que nunca se concretizou. Passa as noites em bares, se envolvendo com mulheres para provar a si mesmo que não é gay. Mas tudo nele transborda repressão e desejo”, relata o ator.
Cassio revela que a preparação para o papel exigiu tanto mudanças físicas quanto mentais, pois também foi um mergulho emocional profundo.
“Foi um processo intenso. Tive que aprender a separar o personagem de mim mesmo. A dor dele não é a minha, mas é impossível não se identificar em alguma medida. O Carlos vive conflitos que muitos de nós já vivemos”, completou.
Adaptação ousada
Para Raíssa Alves, adaptar os contos de Caio Fernando Abreu foi mais do que um desafio artístico, foi uma realização pessoal.
“Sempre fui apaixonada pelas obras dele. O maior cuidado foi manter sua essência: a poesia, a crueza, a dor. Criei diálogos entre personagens que originalmente não coexistiram, ampliando as vozes e os encontros possíveis dentro desse universo”, afirma.
A escolha do elenco também foi um ponto crucial. Raíssa selecionou os atores com base na confiança e na admiração que sente por eles.
“Cada ator foi provocado e desafiado durante os ensaios. O resultado é um elenco afiado, sensível e completamente entregue à história. Ver os personagens ganharem corpo e alma foi emocionante”, diz a diretora.
Uma experiência mais do que teatral
Mais do que contar uma história, A “Solidão por Trás da História” convida o público a viver uma experiência sensorial e emocional.
A peça levanta questões sobre identidade e desejo, assim como isolamento e pertencimento. Temas que continuam urgentes e universais.
“Espero que o público se sinta tocado, provocado. Que leve pra casa uma lembrança, uma pergunta, uma inquietação. Se conseguirmos isso, saberei que cumprimos o nosso papel”, finaliza Raíssa Alves.
O espetáculo é uma homenagem à literatura de Caio Fernando Abreu e, ao mesmo tempo, um espelho para o público: será que todos nós estamos dentro ou fora da “roda”?
A apresentação acontece neste sábado (2) às 20h, no Teatro Municipal de Boa Vista. A entrada é gratuita porém a classificação indicativa é de 16 anos.