A empresa americana Colossal Biosciences desenvolve uma tecnologia que beira à ficção científica. Seu propósito é ressuscitar espécies já desaparecidas, como o mamute-lanoso, o tigre-da-Tasmânia (Thylacine) e o pássaro dodô – tudo com o objetivo de restaurar ecossistemas e combater a crise da biodiversidade.
E foi no SXSW, festival de inovação e entretenimento que acontece em Austin, EUA, que o CEO da Colossal, Ben Lamn, ao lado do ator e produtor Joe Manganiello, apresentou os avanços das pesquisas que vem realizando. Pelo menos com o manute-lanoso, o processo, que ele chama de des-extinção, está bem avançado.
Mas antes que alguém pudesse levantar a clássica comparação com Jurassic Park, Lamm já tratou de desarmar o clichê: “Não há DNA de dinossauro, então não vamos trazer dinossauros de volta”. Mas o mamute da Era do Gelo está bem próximo de ser recriado.

Ben Lamn, CEO da Colossal, diz que não há DNA de dinossauro para recriar a espécie. Mas o mamute-lanoso, aquele da Era do Gelo, tem parentes próximos ainda vivos (os elefantes asiáticos) e restos mortais bem preservados na tundra siberiana.
O que a Colossal busca, segundo seu CEO, é algo bastante ambicioso: não apenas trazer de volta espécies extintas mas também evitar a extinção de espécies ameaçadas. É o caso de alguns felinos africanos que possuem apenas uma linhagem e, por isso, caminham de forma acelerada para desaparecerem.
Des-extinção: solução ou capricho?
A Colossal não se define apenas como uma empresa de “des-extinção”, mas sim como um laboratório de avanços genéticos que podem impactar tanto o mundo natural quanto a medicina humana.
A proposta é usar a engenharia genética para corrigir erros ecológicos do passado, devolvendo espécies desaparecidas ao meio ambiente. Ao mesmo tempo, desenvolver tecnologias que possam ser aplicadas na saúde e na conservação. As pesquisas são desenvolvidas com financiamento privado e do governo americano.
O exemplo mais icônico é o do mamute-lanoso. Segundo Lamm, a reintrodução desse animal na tundra poderia ajudar a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Isso por que esses grandes herbívoros ajudariam a compactar o solo e a preservar o permafrost, evitando a liberação de gases do efeito estufa.
Mas a tecnologia desenvolvida para essa façanha vai além do espetáculo biológico. A mesma técnica que permite modificar o DNA do elefante para torná-lo mais próximo de um mamute pode ser usada para prevenir doenças genéticas em humanos.
“Nós podemos erradicar até 90% das doenças conhecidas”, afirmou Lamm, destacando que a interseção entre biotecnologia, inteligência artificial e ciência genética pode levar a avanços que parecem ficção científica.
A ética da ressurreição
Se a possibilidade de trazer de volta espécies extintas fascina, ela também levanta questões éticas. A Colossal argumenta que a escolha de não fazer nada pode ser ainda mais problemática do que tentar reverter os danos causados pelo ser humano.
Segundo Lamm, metade das espécies conhecidas pode ser extinta até 2050 se nada for feito, e a des-extinção pode ser uma ferramenta essencial para frear essa perda. A empresa, segundo ele, trabalha com rigorosos protocolos científicos para garantir que as espécies ressuscitadas não sejam apenas curiosidades de laboratório, mas que possam se reintegrar ao meio ambiente de maneira responsável.
O Mamute Começa Pelo Rato
Antes de trazer um mamute de volta, a Colossal realizou um experimento curioso: a criação de um “mini-mamute”, um camundongo geneticamente modificado com características semelhantes ao ancestral da era do gelo. Esse teste serviu para validar as técnicas de edição genética antes de serem aplicadas em elefantes.

O experimento, além de confirmar a viabilidade da tecnologia, revelou algo ainda mais promissor: a capacidade de manipular genes com eficiência e segurança inéditas. Isso abre espaço para futuras aplicações médicas e, possivelmente, para intervenções genéticas que possam retardar ou até mesmo reverter o envelhecimento.
O mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) foi totalmente extinto há cerca de 4.000 anos. Espécie muito resistente ao frio, a estimtiva da Colossal é que os primeiros filhotes com DNA híbrido sejam criados em 2028.
Os 12 Passos da Des-extinção do Mamute-lanoso
A ressurreição de uma espécie extinta como o mamute-lanoso é um processo altamente complexo e envolve 12 etapas fundamentais:
- Coleta de DNA do elefante-asiático – O primeiro passo é extrair e purificar o DNA de amostras de sangue ou tecido de um elefante-asiático vivo, o parente genético mais próximo do mamute.
- Sequenciamento do genoma do elefante-asiático – O DNA é analisado para mapear toda a sequência genética da espécie, permitindo comparações com o mamute.
- Coleta de amostras de tecidos de mamutes-lanosos preservados – Devido ao frio extremo da Sibéria, restos mortais bem preservados desses animais fornecem DNA antigo para análise.
- Sequenciamento do genoma do mamute-lanoso – Os cientistas comparam os genomas do mamute e do elefante-asiático para identificar diferenças-chave que conferiam características de resistência ao frio.
- Identificação dos genes a serem editados – Os traços genéticos do mamute que serão inseridos no DNA do elefante incluem orelhas menores, pelagem densa, hemoglobina adaptada ao frio e depósitos de gordura.
- Construção de bibliotecas CRISPR – Os cientistas criam uma biblioteca genética contendo mais de 50 características associadas à resistência ao frio para serem inseridas no genoma do elefante.
- Edição genética com CRISPR – O DNA do mamute é introduzido no genoma do elefante por meio da tecnologia CRISPR, substituindo sequências específicas.
- Teste da expressão dos genes editados – As células modificadas são testadas para garantir que as características do mamute estejam ativas e funcionais.
- Transferência nuclear de células somáticas (SCNT) – O núcleo de um óvulo de elefante-asiático é substituído pelo núcleo geneticamente modificado contendo o DNA híbrido.
- Desenvolvimento do embrião e implantação em uma mãe de aluguel – O embrião editado é cultivado e implantado em uma fêmea de elefante-africano, a única espécie grande o suficiente para suportar a gestação.
- Gestação – O período de gestação dos elefantes dura de 18 a 22 meses antes do nascimento.
- Nascimento do mamute híbrido – O filhote terá genes do mamute-lanoso e do elefante-asiático, sendo o primeiro passo para a recriação da espécie extinta.
Além dos Mamutes: O Futuro da Engenharia Genética
Se os mamutes e o tigre-da-Tasmânia são os grandes chamarizes da Colossal, as implicações de sua pesquisa vão muito além da biologia da conservação.
Durante a apresentação na SXSW, Lamm mencionou outras linhas de atuação: o trabalho da empresa em bioplásticos, engenharia genética para remoção de poluentes e até mesmo armazenamento de dados em DNA – uma alternativa futurista à computação tradicional.
E para os que imaginam um futuro onde essas tecnologias são mal utilizadas, o próprio CEO admite que essa é uma preocupação real. “A Colossal trabalha em conjunto com o governo dos EUA para manter controle sobre os avanços da biotecnologia, garantindo que as ferramentas de edição genética sejam utilizadas de maneira ética e segura”, garante.
Caminho sem Volta
O que ficou claro na apresentação da Colossal Biosciences na SXSW é que não estamos mais falando de teorias ou experimentos de ficção científica. De fato, a engenharia genética já está transformando o mundo. E, segundo Lamm, o avanço nessa área é inevitável. “A escolha de não avançar também é uma escolha – e sabemos o que acontece se ficarmos parados”, enfatizou.
No fim das contas, a pergunta deixou de ser se conseguiremos trazer de volta animais extintos. A questão agora é como faremos isso da maneira mais responsável e benéfica possível para o planeta.
O Portal Norte, do Grupo Norte de Comunicação, acompanhou de perto as principais novidades da SXSW, diretamente de Austin.