O município de Atalaia do Norte, no interior do Amazonas, tem visto um aumento expressivo na abertura de casas de aposta, mesmo sendo uma das cidades brasileiras com os piores índices de desenvolvimento humano (IDH).
O fenômeno chama ainda mais atenção pelo perfil dos frequentadores: além de moradores da área urbana, indígenas do Vale do Javari têm se deslocado de suas aldeias até o centro da cidade para participar dos jogos.
Nos salões, os clientes encontram desde apostas esportivas no estilo “bet” até bingos eletrônicos, com prêmios que podem alcançar os R$ 10 mil. Às sextas-feiras, o movimento costuma ser ainda maior, reunindo dezenas de apostadores em busca das premiações em dinheiro.
Casas chegam a receber mais de 100 pessoas por dia
Funcionários de um dos estabelecimentos afirmam que a procura tem crescido rapidamente e que o fluxo diário já passa de 100 pessoas.
“É 100% confiável. Ganhou, pagou”, disse Eduardo Costa, que também destacou a forte presença indígena nos jogos. Segundo ele, muitos deles já figuram entre os ganhadores.
Moradores da cidade confirmam que outras casas de aposta estão em operação no município e que a prática tem se consolidado como uma forma de lazer e de esperança de lucro rápido para parte da população.
Especialistas veem risco de dependência
O avanço de casas de aposta em regiões vulneráveis, como o município no interior do Amazonas, preocupa pesquisadores da área de saúde.
Para Aderbal Vieira, coordenador do ambulatório de dependência de comportamentos da Unifesp (Proad), o jogo pode ter efeitos semelhantes ao álcool em comunidades indígenas que já vivem em situação de fragilidade social.
“Essa população está sempre nos extremos. O impacto é diferente de quando atinge alguém em grandes centros urbanos, porque a condição social pesa muito”, explicou o especialista.
Região marcada por vulnerabilidades
Atalaia do Norte abriga cerca de 8 mil indígenas, muitos em áreas de difícil acesso no Vale do Javari. A cidade enfrenta carência de políticas públicas, infraestrutura precária e uma economia quase totalmente dependente do setor público, o que amplia as preocupações sobre o impacto social do crescimento das apostas.
O município ganhou notoriedade internacional em 2022, após o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, em um caso que expôs a presença do crime organizado e da pesca ilegal na Tríplice Fronteira.
*Com informações do Metrópoles