O caso de uma jovem de 18 anos, identificada como Rebeca de Paula Ferreira, suspeita de ter jogado o próprio bebê recém-nascido pela janela logo após o parto chocou a população em Manaus.
O episódio gerou comoção pública e reacendeu o debate sobre infanticídio e os transtornos mentais que podem acometer mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal, como a depressão pós-parto e o surto psicótico puerperal.
Análise do caso de bebê jogado de janela em Manaus
Em entrevista à TV Norte Amazonas, a psicóloga Klicya Queiroz alertou para a necessidade de cautela ao julgar casos como este.

“Na verdade, o julgamento é sempre o que vem primeiro. As pessoas, no senso comum, acreditam que conseguem dar um diagnóstico adequado imediatamente. E até para nós, profissionais, é sempre necessário estudar mais a fundo. Entender todo o contexto para poder dar um diagnóstico”, afirmou.
A especialista apontou que o caso pode ter relação com um surto psicótico puerperal, condição rara e grave que pode ocorrer logo após o parto, levando a delírios, alucinações e, em casos extremos, ao infanticídio.
“Nesse caso, a mãe pode tomar atitudes que causam risco à própria vida ou à vida da criança”, disse.
Sintomas e prevenção
De acordo com a psicóloga, é possível identificar sinais ainda durante a gestação, principalmente se houver um acompanhamento psicológico adequado.
“O ideal seria que essa mãe tivesse um pré-natal psicológico, porque normalmente as pessoas fazem apenas o pré-natal comum. Se há choro frequente, alteração emocional, é preciso levantar a suspeita e buscar ajuda”, explicou.

Klicia também destacou a diferença entre o chamado baby blues (uma tristeza passageira nas primeiras semanas após o parto) e a depressão pós-parto, (uma condição mais profunda e duradoura).
“A mãe começa a não querer ficar com o bebê, não querer fazer nada do que fazia normalmente. Isso pode afetar o vínculo com a criança, levando a problemas emocionais como irritabilidade, distúrbios do sono e até perda de peso”, afirmou.
Sentimentos contraditórios e maternidade idealizada
Para a psicóloga, muitas mulheres sofrem silenciosamente por não corresponderem à idealização da maternidade.
“A maternidade vem regada de sentimentos romantizados. Quando esse filho nasce e a mãe não sente aquele amor idealizado, ela pode se frustrar. E há ainda os casos em que a gestação não foi desejada, o que agrava a situação”, completou.
O papel da rede de apoio
O apoio familiar e social é fundamental para evitar que quadros emocionais se agravem durante o puerpério, período imediatamente após o parto.

“Mesmo sem depressão, o puerpério já é difícil. A mulher vive uma sobrecarga emocional e fisiológica intensa. Quanto mais rede de apoio ela tiver, mais fácil será enfrentar esse momento”, concluiu.
O caso segue sob investigação pelas autoridades locais, que devem apurar as circunstâncias do ocorrido.
A jovem mãe recebeu atendimento médico, foi ouvida na delegacia e deverá responder pelo crime de infanticídio.
O recém-nascido sobreviveu à queda e seu estado de saúde é estável. Ainda não há informações sobre qual será o destino da criança.