Mulheres no cinema amazonense: protagonismo, desafios e representatividade
Redação Portal Norte
O cinema brasileiro celebra um marco inédito: o Oscar de melhor filme internacional conquistado pelo filme “Ainda Estou Aqui”. É nesse clima de festa que o Portal Norte aproveita o Dia Internacional da Mulher para homenagear as mulheres que fazem história no cinema amazonense.
Com foco em suas lutas, conquistas e a importância de suas narrativas, a matéria destaca o protagonismo feminino no audiovisual amazônico, trazendo as perspectivas de duas profissionais: a realizadora audiovisual e artista visual Keila-Sankofa e a mestre em Sociedade e Cultura e crítica de cinema Pâmela Eurídice.
Keila-Sankofa é realizadora audiovisual e artista visual conhecida no cinema no Amazonas com um longo currículo de produções locais e representativas e falou sobre os desafios e protagonismo de mulheres.
A mestre em Sociedade e Cultura e crítica de cinema, Pâmela Eurídice, compartilhou como alguém que acompanha e participa do mundo do cinema local, seu olhar sobre a representação das mulheres no cinema amazonense atualmente.
Keila-Sankofa: resistência e representatividade no audiovisual
Keila-Sankofa, reconhecida por seu extenso currículo em produções locais e representativas, abordou os desafios de ser uma mulher negra no cinema da região Norte.
Keila-Sankofa – Foto: Divulgação/Keila-Sankofa
“Sou uma pessoa negra, e esse é o maior gargalo que vivencio. A cor da minha pele e minha cultura, somadas ao feminino, fazem parte da minha existência e também das violências que enfrento. Mas faço isso produzindo imagens estáticas e em movimento”, disse.
Um de seus trabalhos que destacam a participação e protagonismo de mulheres é o filme “Alexandrina – Um Relâmpago”, que conta a história de uma jovem moradora de Tefé (AM) no século XIX.
O filme, premiado e licenciado pelo Itaú Play, desafia os registros históricos distorcidos e resgata a memória de Alexandrina, uma mulher negra da Amazônia que foi reduzida a objeto de estudo e esquecida.
“Esse trabalho faz do cinema de invenção um campo fértil de contestação, rasgando os registros do perverso e mentiroso passado”, explicou Keila.
Dificuldades de se produzir cinema na região Norte
Sobre as dificuldades de produzir cinema na região Norte, Keila destacou o “custo amazônico”, que envolve desafios logísticos e culturais únicos.
“Há um esforço para não entender nossas reais demandas. Nossa cultura envolve comida, transporte, finalização do material, tudo executado de forma diferente do restante do país. Qual outra região do país tem os rios como fundamentais para chegar às comunidades e cidades?”, questionou.
“Alexandrina — um relâmpago” de Keila Sankofa – Foto: Divulgação
Em contrapartida, Pâmela Eurídice pontuou outros desafios:
“São muitos! Precisamos pensar em políticas públicas que beneficiem e, ao mesmo tempo, acolham essas mulheres para haver equidade de gênero. Precisamos de cotas para igualar a produção feminina à masculina e de incentivos para que novas diretoras possam surgir”, disse.
Ela também destacou a importância de reforçar o setor educacional, com cursos profissionalizantes como o da UEA (Universidade do Estado do Amazonas), que vive sob ameaça de descontinuidade quando não há vestibular para novos ingressantes.
Protagonismo feminino e narrativas negras
Keila também falou sobre os critérios que considera ao escolher projetos com histórias ou personagens femininas.
Imagens do filme “Alexandrina — um relâmpago” de Keila Sankofa – Foto: Divulgação/Keila-Sankofa
“Me interesso por narrativas negras, por narrativas de conhecimento ancestral, por símbolos que perpetuam minha existência como mulher negra da Amazônia. Faço isso com maestria”, disse.
Ela citou a atriz Isabela Catão como um exemplo de boa representação feminina no cinema. “Isabela é a voz de Alexandrina e protagonista do filme ‘O Barco e o Rio’. Ela traz questões profundas sobre o feminino sobre as águas com muita segurança”, destacou.
Curta metragem ‘O Barco e o Rio’, com atriz amazonense Isabela Catão – Foto: Divulgação
A cineasta ainda refletiu sobre as mudanças que gostaria de ver no cinema local, especialmente em relação à participação das mulheres.
“A sociedade é dominada por homens, majoritariamente brancos. Minha produção criativa será questionada incessantemente, e terei que trabalhar o triplo para que ela exista. Já fui desrespeitada por homens em minha produção e tive que intervir em situações de desrespeito a outras profissionais. A caminhada das mulheres negras e indígenas no cinema é potente, e continuaremos a transformar histórias em imagens em movimento”, finalizou.
Pâmela Eurídice: um olhar crítico sobre o cinema amazonense
A mestre em Sociedade e Cultura e crítica de cinema, Pâmela Eurídice, compartilhou sua perspectiva sobre a representação das mulheres no cinema amazonense.
“Ainda temos um longo caminho a percorrer em relação à representatividade feminina no cinema, e o cenário amazonense não foge dessa realidade. No entanto, observamos uma movimentação significativa. Temos diretoras mulheres ativas e premiadas, com filmes que carregam características amazônicas e, ao mesmo tempo, estabelecem diálogos universais, como os trabalhos da Keila Sankofa”, afirmou.
Filme amazonense produzido por Thais Kokama – Foto: Divulgação
Pâmela citou ainda nomes como Ellen Lynch, Isis Negreiros, Samara Souza, Jake Praia e Flávia Bitbol, que ocupam diferentes funções e contribuem para um olhar diferenciado no cinema local.
“Apesar dos avanços, ainda precisamos ocupar mais espaços. Há lugares que precisamos chegar enquanto mulheres na produção, mas estamos traçando nosso caminho. Os desafios persistem, mas estamos avançando”, destacou.
Por fim, ela expressou o desejo de ver mais filmes com olhares femininos no centro das narrativas, trazendo perspectivas tangíveis do cotidiano, com seus altos e baixos.
“Também penso em termos de mais mulheres ocupando espaços na produção, nos sets, e em políticas públicas que possibilitem isso”, concluiu.