Facções nos rios da Amazônia: entenda como o tráfico que mata jovens domina as rotas fluviais do Amazonas

Redação Portal Norte

O tráfico de drogas é um dos principais problemas que o Amazonas e os estados da Amazônia brasileira enfrentam, com homens jovens sendo mortos diariamente por conta de disputas entre facções que dominam os rios.

No dia 3 de dezembro de 2024, um jovem identificado como Kaik Rener Marques Pereira, de 20 anos, desapareceu em Manaus. Nesta terça-feira (18), o corpo foi encontrado em área de floresta. De acordo com a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), ele foi morto por um grupo que confundiu o jovem com um membro de uma facção rival.

Além dele, Gabriel Ravi de 11 anos, morreu ao ser baleado por um tiro na cabeça no Valparaíso, zona Leste de Manaus em setembro de 2024, durante ataque de facção. A jovem Aline dos Santos, de 22 anos, também morreu por conta de uma dívida em agosto de 2024, na capital amazonense.

Kaik Rener Marques Pereira, de 20 anos – Foto: Reprodução

Política de intervenção aérea aumentou a atuação de facções nos rios da Amazônia

Apesar desta realidade ser cada vez mais comum, nem sempre a violência apresentou essa gravidade, que se intensificou nos últimos 20 anos após mudanças que o Governo Federal fez no espaço aéreo da Amazônia.

É o que diz a pesquisa “Landing on Water: Air Interdiction, Drug-Trafficking Displacement, and Violence in the Brazilian Amazon”, publicada em 2024.

O estudo aponta que a “política de interdição aérea”, implementada em 2004, impactou comunidades dos municípios da Amazônia localizados na chamada “rota do tráfico”.

Estudo “Aterrissando na água: interdição aérea, tráfico de drogas e violência na Amazônia brasileira”

Essa medida tinha como objetivo combater o tráfico aéreo a partir de uma infraestrutura de monitoramento. Com esse sistema de vigilância implantado, o governou passou a utilizar a “política de interdição aérea”, também chamada de “Lei do Abate”.

Um exemplo do uso da “Lei do Abate” aconteceu recentemente com um avião abatido pelas Forças Aéreas Brasileiras (FAB), no dia 6 de fevereiro, no Amazonas. A aeronave entrou de forma clandestina em território brasileiro e foi abatida após os traficantes desobedecerem a ordem de pouso forçado.

FAB abate avião de traficantes – Foto: Reprodução

Conforme a pesquisa, a “política de interdição aérea” reduziu o tráfico aéreo de drogas na Amazônia. No entanto, houve um “efeito colateral” com o deslocamento da atividade ilegal para as rotas fluviais.

Comunidades sofrem com violência

Como consequência, populações que vivem nas regiões da “rota do tráfico”, ou seja, cidades banhadas por afluentes do rio Amazonas que perpassam países que produzem drogas como Bolívia, Colômbia e Peru, ficam vulneráveis e são expostas às facções criminosas.

Esse diagnóstico é reforçado com dados: a pesquisa mostra que ao longo dos últimos anos, a taxa de homicídios nas “rotas do tráfico” são maiores em comparação com a taxa de homicídios dos municípios fora dessas rotas.

Entre 2005 e 2020, 1.430 homicídios foram registrados e são atribuídos diretamente ao deslocamento do fluxo de drogas no espaço aéreo para os rios da Amazônia. A pesquisa também reflete a realidade de capitais como Manaus: os mais impactados são homens com 20 a 49 anos.