Indígena de 80 anos recebe pela primeira vez sua certidão de nascimento no interior do Amazonas

Redação Portal Norte

Indígena da etnia Tukano, Amélia Vicente Neta, aos 80 anos, conseguiu sua primeira certidão de nascimento, documento que ela aguardava há décadas.

No último dia da Campanha de Registro Civil e Cidadania, promovida pela Corregedoria-Geral de Justiça do Amazonas, Tribunal de Justiça do Estado e parceiros, a história de dona Amélia marcou os trabalhos realizados na Escola Estadual de Tempo Integral Danilo de Mattos Areosa, em Novo Airão, no interior do Amazonas.

Nascida na região de Pari-Cachoeira, às margens do rio Tiquié, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), já na fronteira com a Colômbia, dona Amélia nunca teve a oportunidade de ir à sede do município para conseguir seu registro de nascimento.

Ao longo dos anos, ela viveu com o Registro Administrativo de Nascimento de Indígena (Rani). Na tarde dessa terça-feira (17), acompanhada pela filha Claudete, de 47 anos, finalmente conseguiu sua certidão de nascimento.

Para Letícia Camargo, registradora dos cartórios extrajudiciais de Novo Airão e São Gabriel da Cachoeira, o caso reflete ainda a situação de muitas pessoas no estado.

“Foi uma honra participar desse momento da vida de dona Amélia, que representa tantas pessoas que ainda aguardam o direito básico de existir nos registros oficiais”, afirmou.

Histórias de superação e cidadania

Além do caso de dona Amélia, outras histórias também emocionaram as equipes envolvidas na campanha. Uma menina venezuelana de 10 anos, que vive com a avó em Novo Airão, chegou ao local sem nenhum documento. A avó, que não possuía a guarda legal da criança, precisou das orientações das equipes da Polícia Federal e da Defensoria Pública do Amazonas para regularizar a situação.

Outro caso foi o de uma mãe que procurou a campanha para ajudar o filho, que possui deficiência e teve o CPF cancelado, resultando no bloqueio de benefícios sociais.

Resultados importantes

O juiz-corregedor Rafael Cró, que coordenou a ação, destacou a importância do evento para a população de Novo Airão e comunidades adjacentes.

“Recebemos pessoas que viajaram por horas, e até dias, de barco para serem atendidas nesses dois dias da campanha de Registro Civil e Cidadania na sede de Novo Airão. Isso demonstra o alcance social dessa campanha e a necessidade de continuar levando esses serviços às populações mais distantes.”, afirmou o magistrado.

Nos dois dias da ação, aproximadamente 1.000 atendimentos foram realizados, incluindo emissões da Carteira de Identidade Nacional (CIN), regularização de certidões de nascimento, casamento e CPF.

“Ver o impacto dessas ações nas vidas das pessoas, especialmente em casos como o de dona Amélia, nos enche de orgulho e reforça a importância de iniciativas como essa.”, concluiu Rafael Cró.