O Acre enfrenta um cenário alarmante de violência contra a mulher. Com os recentes assassinatos de Maria Luceleide de Oliveira, de 57 anos, em Cruzeiro do Sul, e da jovem Cibelly Silva Rodrigues, de 18 anos, em Porto Acre, o estado já soma 13 feminicídios até a metade de outubro de 2025.
Os casos reacendem o debate sobre o enfrentamento à violência doméstica e a efetividade das políticas públicas voltadas à proteção das vítimas.
Dados mais recentes divulgados pela Polícia Civil do Acre (PCAC), por meio do Departamento de Inteligência, indicavam estabilidade nos índices até julho deste ano, quando cinco feminicídios haviam sido registrados, o mesmo número do mesmo período de 2024.
No entanto, o avanço dos meses seguintes mudou o cenário. O aumento reforça uma tendência de retomada da violência após um período de queda observado desde 2022.
Cenário histórico e distribuição dos casos
Nos últimos dez anos, o Acre tem apresentado oscilações significativas nas estatísticas de feminicídio. O pico ocorreu em 2016 e 2018, com 14 ocorrências cada.
A partir de então, houve uma redução gradual, com 11 casos em 2019; 12 em 2020; 13 em 2021; 9 em 2022; 10 em 2023 e 8 em 2024.

Até o fim de outubro de 2025, o estado já soma dez casos confirmados oficialmente pela Polícia Civil e três novos homicídios registrados nas semanas mais recentes, totalizando 13 mortes violentas de mulheres.
As ocorrências iniciaram em janeiro, com um caso em Mâncio Lima, seguido por um em abril, em Rio Branco.
Em junho, Senador Guiomard registrou duas mortes, enquanto em julho houve um caso em Tarauacá.
Nos meses seguintes, a violência se manteve presente. Em agosto e setembro ocorreram dois feminicídios por mês, ambos divididos entre Rio Branco, Tarauacá e Cruzeiro do Sul.
Já neste mês, três novos casos foram confirmados nos municípios de Porto Acre, Feijó e Cruzeiro do Sul.

A maior parte dos feminicídios ocorre no interior (63%), percentual superior ao da capital, que concentra 37% dos casos. Municípios de pequeno porte, como Feijó, Senador Guiomard e Capixaba, figuram entre os mais afetados.
Em contrapartida, Porto Walter e Santa Rosa do Purus permanecem como os únicos municípios que não registraram feminicídios entre 2018 e 2025, segundo o Feminicidômetro do Ministério Público do Acre (MPAC).
Taxas de feminicídio e comparativo nacional
Com base nos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do Mapa de Segurança Pública (Ano Base 2024), o Acre ocupa a sétima posição no ranking nacional de feminicídios, com uma taxa de 1,82 casos por 100 mil mulheres. O índice é superior à média da região Norte, de 1,32 e à média nacional, de 1,38.
Os estados com as maiores taxas são Mato Grosso (2,47), Mato Grosso do Sul (2,39) e Piauí (2,32). Já os menores índices se concentram no Ceará (0,86), Sergipe (0,84) e Amapá (0,50).
Entre as regiões do país, o Centro-Oeste lidera o ranking (1,87), seguido pelo Sul (1,46), Nordeste (1,40), Norte (1,32) e Sudeste (1,16). No contexto acreano, a taxa é mais alta no interior (3,0) do que na capital (1,6).
Violência doméstica: números e tendências
O relatório da Polícia Civil do Acre também apresentou um retrato detalhado das demais ocorrências de violência doméstica no estado.
Entre janeiro e julho de 2025, houve um aumento de 1,8% nos boletins de ocorrência por lesão corporal, com 838 registros, ante 823 no mesmo período de 2024.
Já os casos de vias de fato, consideradas agressões sem ferimentos, tiveram queda de 21,7%, passando de 235 para 184.
Esses dados demonstram que, apesar de um número menor de agressões leves, os episódios mais graves persistem, o que reflete a dificuldade de romper o ciclo de violência e impedir que ele evolua para situações fatais.
Audiência pública e novas políticas
Para discutir o avanço da violência contra mulheres e a criação de novas medidas de enfrentamento, o tema foi debatido em audiência pública na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), em 23 de outubro, reunindo representantes dos três Poderes, além do Ministério Público, Defensoria Pública, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e organizações da sociedade civil.
O encontro teve como foco a elaboração de estratégias de prevenção de feminicídios e a ampliação da rede de proteção às mulheres em situação de vulnerabilidade.
Entre as propostas discutidas está a Lei Sara Araújo, que institui o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, em 13 de abril, data que homenageia a servidora pública vítima de violência doméstica.
A iniciativa prevê ações educativas e campanhas de conscientização em escolas, órgãos públicos e comunidades.
Durante a reunião, representantes do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) apresentaram intentos como o projeto ‘Conscientização pela Paz no Lar‘, voltado à promoção da igualdade de gênero e ao combate a estereótipos.

Também foram destacados os Grupos Reflexivos para Homens Agressores, que têm o objetivo de reduzir a reincidência por meio de acompanhamento psicológico e educativo.
Desde 2021, o Judiciário tem buscado institucionalizar o programa em parceria com as prefeituras municipais.
Medidas protetivas e lacunas no sistema
O Feminicidômetro do MPAC revela que, entre 2018 e 2025, apenas sete das 87 vítimas de feminicídio haviam solicitado medidas protetivas de urgência antes de serem mortas.
O número evidencia a distância entre o aparato legal e o acesso efetivo das mulheres aos mecanismos de segurança.
As medidas previstas na Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) permitem, entre outras ações, o afastamento do agressor, o uso de tornozeleira eletrônica, a instalação de botão do pânico e o acompanhamento pela Patrulha Maria da Penha.
Especialistas apontam que a subnotificação e o medo ainda são barreiras que impedem muitas vítimas de buscar ajuda a tempo.
Conforme o Feminicidômetro, entre 2018 a 2024, das vítimas 72% delas tinham filhos e 21%, não. Em 2023, o Acre ficou em segundo lugar entre os estados com maior taxa de feminicídio consumado.
Rede de apoio e enfrentamento
O combate à violência de gênero exige o fortalecimento da Rede de Proteção à Mulher, formada por órgãos de segurança, saúde, assistência social e justiça.
De acordo com especialistas, para romper o ciclo da violência, é essencial que as vítimas tenham acolhimento imediato, acesso à informação e apoio psicológico e jurídico.
O Acre conta com uma estrutura voltada a esse atendimento, incluindo:
- Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) – (68) 3221-4799;
- Central de Atendimento à Mulher (Disque 180);
- Polícia Militar (190);
- Centro de Atendimento à Vítima (CAV) – (68) 99993-4701;
- Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) – (68) 99605-0657;
- Casa Rosa Mulher – (68) 3221-0826.
Ações de combate à violência contra a mulher em 2025
Ao longo de 2025, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) realizou diversas ações voltadas à prevenção e ao combate à violência contra mulheres no Acre, com destaque para iniciativas de conscientização, políticas públicas e mobilização social.
Entre as principais atividades estão a campanha ‘21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência’, a ‘Caminhada do Agosto Lilás’ e o ‘Prêmio Laço Branco e Laço Lilás’.
Em março, a Semulher organizou reuniões com representantes de instituições públicas e movimentos sociais para alinhar estratégias interinstitucionais de enfrentamento à violência de gênero.
Participaram do planejamento órgãos como o Ministério Público do Acre, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, Polícia Militar, Secretaria de Saúde, Secretaria de Justiça e Segurança Pública e Secretaria de Educação.
O objetivo foi fortalecer a rede de proteção às mulheres, intensificar ações de prevenção ao feminicídio e promover mobilizações sociais em todo o estado.

Já o prêmio Laço Branco e Laço Lilás, criado pelo governo do Acre em 2024, teve sua edição de 2025 aberta com inscrições entre 26 de setembro e 24 de outubro.
O reconhecimento é destinado a homens e mulheres que se destacam na promoção da igualdade de gênero, conscientização sobre violência de gênero, apoio a vítimas e liderança social.
O prêmio busca valorizar ações que incentivem a mobilização social e reforcem a importância da erradicação da violência contra as mulheres.
Durante o Agosto Lilás, a Semulher organizou caminhadas em Rio Branco, Epitaciolândia, Cruzeiro do Sul e Sena Madureira para chamar a atenção da população sobre a violência doméstica e o feminicídio.
Em Rio Branco, o evento teve concentração no Museu dos Povos Acreanos, com o tema Feminicídio Zero, e encerrou em frente ao Palácio Rio Branco.
A campanha coincidiu com a celebração dos 19 anos da Lei Maria da Penha, considerada uma das legislações mais completas do país no combate à violência doméstica.
Ao longo do ano, a Semulher também manteve campanhas de conscientização e serviços de atendimento à mulher em diferentes eventos e datas comemorativas, como o Bloco do Respeito no Carnaval, o Mês da Mulher, a Quinzena da Mulher Negra, o Agosto Lilás, a Expoacre e agora, os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência.
A pasta promoveu atendimento jurídico, psicológico e social para mulheres em situação de violência, incluindo grupos específicos, como mulheres negras, indígenas, LBT+, ribeirinhas, da zona rural e empreendedoras.
A população pode acessar os serviços da Secretaria de Estado da Mulher por meio da Central de Atendimento à Mulher pelo número 180, disponível 24 horas gratuitamente e de forma anônima.
Além disso, denúncias podem ser realizadas presencialmente ou via WhatsApp da pasta, que funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, pelo número (68) 99930-0420, ou na sede, localizada na Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel.
Para que não sejam esquecidas

Graziely Lima de Oliveira, Janice da Rocha Lima, Luana Conceição do Rosário, Auriscléia Lima do Nascimento, Maria José de Souza, Ivanilde Souza da Silva, Erilene da Silva Costa, Maria José de Oliveira, Ramila Freitas de Oliveira, Maria Luceleide de Oliveira, Elizete de Amorim Malveira, Ionara da Silva Nazaré e Cibelly Silva Rodrigues.
Mães, filhas, estudantes, servidoras, enfermeiras, trabalhadoras… Mulheres de diferentes histórias, idades e sonhos, mas que acabaram se unindo por tragédias que nunca deveria ter acontecido.
Jovens ou adultas que amavam, cuidavam e lutavam todos os dias por suas famílias e por um futuro melhor, que tiveram suas vidas interrompidas pela violência que ainda insiste em silenciar mulheres no Acre.
Que a memória de cada uma delas se transforme em força, para que o luto se converta em luta e o silêncio em ação, e que as terras acreanas sigam firmes no compromisso de proteger a vida e garantir que nenhuma outra mulher tenham os seus sonhos enterrados.