Advogado da médica no ‘caso Benício’ criticou dosagem de adrenalina antes de assumir defesa

Redação Portal Norte

Um mês antes de confirmar que assumiria a defesa da médica Juliana Brasil Santos no caso da morte do menino Benício, de 5 anos, em Manaus, o advogado Sérgio Figueiredo fez uma declaração pública dura, criticando o que classificou como falhas graves na assistência médica e no sistema de saúde brasileiro.

Na ocasião, Figueiredo afirmou estar “revoltado” com a suposta administração de uma dosagem considerada incompatível com o atendimento pediátrico, mencionando a aplicação de 9 mililitros de adrenalina em uma criança, quantidade que, segundo ele, não seria indicada sequer para adultos em situações extremas.

“Porque em um hospital sério tem redundância, tem checagem, existe alguém para perguntar: ‘Doutora, isso está certo essa quantidade de adrenalina nessa criança de cinco anos?’ Todo mundo abaixou a cabeça, anestesiado pela rotina hospitalar”, afirmou o advogado, ao criticar o que chamou de falhas sistêmicas na saúde pública.

Em outro vídeo divulgado há cerca de uma semana, Sérgio Figueiredo comentou a decisão da Justiça que negou o pedido de prisão preventiva da médica Juliana Brasil Santos.

Na gravação, o advogado afirmou que a medida pode causar indignação, mas defendeu que a análise do caso deve se basear em critérios técnicos e no nexo causal.

Segundo ele, o efeito máximo de uma aplicação inadequada de adrenalina ocorre entre 15 e 30 minutos, enquanto a morte do menino Benício aconteceu quase 12 horas depois do atendimento inicial. Figueiredo sustenta que falhas cometidas pela equipe do Centro de Terapia Intensiva (CTI), incluindo problemas no manejo de medicamentos e no procedimento de intubação, teriam sido determinantes para o desfecho.

O advogado também afirmou que protocolos básicos teriam sido desrespeitados e que a condução clínica na UTI concentrou a responsabilidade pelos erros apontados, argumento que, segundo ele, fundamentou a decisão judicial de negar a prisão da médica.

Críticas ao sistema e relato pessoal

Na mesma declaração, Sérgio Figueiredo relatou um episódio pessoal envolvendo o pai, de 67 anos, que quase morreu após um médico, segundo ele, esquecer de prescrever um anticoagulante durante uma internação hospitalar.

“Às vezes, no Brasil, você não morre pela doença, mas pela imperícia e pela negligência”, declarou, acrescentando que a saúde no país teria se transformado em uma “roleta russa”, na qual qualquer família pode ser a próxima vítima.

Ele também afirmou que erros médicos raramente resultam em responsabilização efetiva. “O erro segue, os culpados somem e a sociedade enterra mais um inocente”, disse.

Nova atuação no caso Benício

No dia 29 de dezembro, no entanto, o advogado confirmou que passou a integrar a defesa da médica Juliana Brasil Santos, ao lado do advogado Bruno Mezzadri, no caso que investiga a morte do menino Benício.

Em entrevista à TV Norte, Figueiredo apresentou uma nova linha de defesa, sustentando que não houve erro médico no atendimento inicial prestado por Juliana Brasil.

Segundo os advogados, eventuais falhas teriam ocorrido durante a atuação da equipe de enfermagem e dos médicos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), responsáveis pelos procedimentos realizados após a prescrição inicial.

Responsabilidade atribuída à UTI

De acordo com a tese apresentada, a defesa aponta falhas técnicas atribuídas à técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva e aos profissionais envolvidos no processo de intubação do menino na UTI. A argumentação sustenta que a prescrição médica não teria sido executada corretamente e que protocolos posteriores não foram seguidos de forma adequada.

Em entrevista exclusiva ao repórter Gabriel Abreu, Sérgio Figueiredo afirmou que a conduta médica adotada por Juliana Brasil estava de acordo com o quadro clínico apresentado no momento do atendimento.

Especialidade médica e acusações

A nova defesa também comentou as acusações de falsidade ideológica e uso de documento falso, que podem levar ao indiciamento da médica. Segundo os advogados, Juliana Brasil não se apresentou falsamente como especialista, mas apenas informou sua área de atuação dentro do setor em que trabalhava.

Eles afirmam que a médica possui especialização em Medicina da Família, o que, de acordo com a defesa, a habilita legalmente a atender pacientes de diferentes faixas etárias, incluindo crianças.

O caso segue sob investigação, enquanto as declarações passadas e a nova atuação do advogado geram repercussão e debates sobre responsabilidade médica, falhas sistêmicas e a condução de atendimentos de emergência na rede de saúde.