Morte de ativista do Acre levanta suspeita de crime de homofobia, apontam instituições

Redação Portal Norte

A morte do servidor público Moisés Alencastro provocou forte comoção e levantou questionamentos sobre a real motivação do crime.

Em nota oficial, o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), afirmou receber “com extrema cautela” a hipótese de latrocínio divulgada inicialmente, apontando que o cenário descrito não corresponde, em uma análise preliminar, à dinâmica típica desse tipo de crime.

Segundo o documento, as lesões encontradas na vítima, como múltiplas perfurações por arma branca e indícios de tentativa de degolamento, indicam “violência exacerbada e desnecessária ao fim de subtração de bens”.

Para os integrantes do CAV, esse padrão costuma estar associado a crimes motivados por ódio, inclusive ações de cunho homofóbico.

A nota ressalta que esse tipo de agressão revela “desprezo pela condição da vítima” e se repete em contextos como feminicídios e assassinatos de pessoas homossexuais. “Trata-se de típica ação de homofobia”, pontua o texto.

Moisés Alencastro atuava justamente no enfrentamento dessas violências. Servidor do MPAC, ele integrava o Centro de Atendimento à Vítima, trabalhando na defesa da dignidade humana e na responsabilização penal de agressores. Para os colegas, sua morte carrega um simbolismo que não permite tratamento superficial do caso.

“Sua morte não pode ser tratada como mais um episódio banal de violência”, afirma a nota, que destaca ainda a necessidade de avanços concretos na construção de uma sociedade livre de discriminação, preconceito e homofobia.

O CAV cobra apuração rigorosa, correta definição jurídica do crime e punição proporcional à gravidade da conduta, para que o homicídio não fique impune.

Apesar das críticas à hipótese inicial, o documento manifesta confiança no trabalho da Polícia Civil e elogia a atuação da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O texto destaca o empenho do delegado e coordenador da unidade, Alcino Ferreira Júnior, citado pelo “empenho extraordinário” e pela condução diligente das investigações.

A nota é assinada pela procuradora de Justiça Patrícia de Amorim Rêgo, coordenadora-geral do CAV, e pelo promotor de Justiça de Direitos Humanos Thalles Ferreira Costa, coordenador adjunto do centro.

Luto e indignação do movimento LGBTQIA+

A Associação de Homossexuais do Acre (AHAC) também se manifestou publicamente, expressando luto e indignação. Para a entidade, o caso não pode ser tratado como um episódio isolado.

“A violência contra pessoas LGBTQIA+ não é um acaso, não é tragédia individual, mas o resultado de uma estrutura de ódio”, afirma a nota.

A associação lembra que Moisés, carinhosamente chamado de Darling, foi “amigo, companheiro de caminhada, militante histórico, produtor cultural e defensor incansável da dignidade humana”. Segundo o texto, “a cultura acreana e a luta pelos direitos humanos amanheceram mais silenciosas. Amanheceram feridas”.

Ao relembrar sua trajetória, a AHAC destaca o protagonismo de Moisés em iniciativas históricas, como as Semanas Acreanas da Diversidade e as Paradas do Orgulho LGBT no Acre, realizadas em períodos em que “ser LGBT significava viver sob ameaça constante” e crimes contra essas pessoas eram invisibilizados.

A entidade também critica reações que tentam responsabilizar a vítima pelo crime. “Não se pode culpar a vítima pelo crime que a vitimou. O que temos vistos nas redes sociais após o assassinato de Darling, nos causa estarrecimento e profunda indignação”, diz a nota.

Em outro trecho, a associação reforça que “depois de tantas décadas de luta, ainda existem milhões de pessoas que insistem em responsabilizar quem morreu, como se amar fosse um erro, como se existir fosse uma provocação”.

O texto afirma ainda que “qualquer pessoa é livre par se relacionar emocionalmente com quem quiser e amar não é crime”, além de afirmar que negar o preconceito é “fechar os olhos para a realidade”, destacando que crimes contra pessoas LGBTQIA+ e mulheres não são fatos isolados, mas expressões de uma estrutura que autoriza a desumanização.

No encerramento, a AHAC presta solidariedade à família, amigos, colegas de trabalho e aos movimentos cultural e social.

“Moisés, Darling, você não merecia partir assim. Descanse em paz guerreiro”, afirma a entidade, finalizando com a mensagem: “Que Deus acolha teu espirito em Luz. Que tua memória seja eterna. Que tua história siga viva em nossas lutas”.

O velório de Moisés Alencastro ocorre às 15h desta terça-feira (23), no Cemitério Morada da Paz, na Capela Central. O sepultamento está marcado para a quarta-feira (24), às 10h.