O Acre é um território de resistência.
Entre rios e florestas que parecem não ter fim, pulsa um povo que carrega em sua essência a diversidade, as cores e as crenças que moldam a alma acreana. Um estado que lutou para ser parte do Brasil e que, hoje, se destaca pela riqueza de sua identidade e pela força de suas tradições.
A quase 400 quilômetros da capital, Rio Branco, o município de Feijó é um refúgio de sabedoria ancestral. Às margens do Rio Envira, onde o transporte fluvial é o principal elo entre comunidades, está a Aldeia Morada Nova, lar de mais de 70 famílias do povo Shanenawa, que, em sua língua, significa “povo do pássaro azul”.
Ali, entre o verde da floresta e o brilho das águas, a educação floresce como a principal ferramenta para manter viva a cultura de um povo que aprendeu a resistir ensinando.
No coração da aldeia está a Escola Estadual Tekahayne Shanenawa, onde mais de 100 crianças estudam do primeiro ao nono ano.
Mais do que um espaço de aprendizado, o colégio é um território de preservação. Nela, o ensino tradicional se entrelaça com o conhecimento ancestral, formando um elo entre passado e futuro.

As paredes, cobertas de desenhos coloridos e símbolos culturais, contam histórias tão antigas quanto as árvores que cercam o lugar. É ali que os pequenos aprendem a escrever, a desenhar e a compreender o significado de cada canto e de cada mito.
“Os povos indígenas vêm se adaptando com esse novo desenvolvimento educacional. Trazendo essas adaptações para as culturas de cada povo, mas dentro a gente aprimora mais essa educação Shanenawa, como na culinária, nos grafismos, nas histórias e nas práticas culturais”, explica a educadora Adréia Shanenawa.

Formada em Letras, ela ensina português e sua língua materna, ajudando as novas gerações a compreender que o conhecimento moderno não precisa apagar a sabedoria dos antepassados. Ao contrário, os dois podem caminhar juntos, lado a lado, como o rio e a floresta.
“Essa metodologia de ensino é fortalecida desde a pré-escola, realizando esse desenvolvimento”, completa, com o olhar firme de quem carrega nas mãos o futuro de sua gente.

Para o cacique Teka Hane Shanenawa, pai de Adréia e líder espiritual da aldeia, cada aula dada é uma vitória contra o esquecimento.
“A gente estuda a nossa cultura, a nossa língua, nossos cânticos… Então, estamos fortalecendo esse trabalho de educação, o que para nós está cada vez mais evoluindo. Hoje já temos pessoas formadas, fazendo mestrado em nossa própria língua. É um privilégio esse apoio do governo do Acre, que tem nos ajudado a fortalecer nossa cultura”, conta.

Segundo Teka, na aldeia, aprender não é apenas uma obrigação escolar, é um ato de resistência. É a certeza de que a voz dos antepassados continua viva em cada criança que repete as palavras ensinadas pelos mais velhos.
O poder da educação que preserva identidades
O secretário de Educação, Aberson Carvalho, reconhece o papel fundamental da escola como guardiã da cultura indígena.

“É um processo de formação que garante a permanência da cultura. Garante que aquele estudante possa se sentir pertencente à sua comunidade indígena. Hoje, temos 170 escolas indígenas em todo o estado, atendendo 15 etnias e 36 territórios. O governo tem feito um trabalho muito direcionado, focado na manutenção da cultura local”, afirmou.

E a preservação cultural também está no prato.
Recentemente, o governo do Acre assinou novos contratos da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos do Acre, garantindo que as escolas indígenas de Feijó passem a receber alimentos produzidos pelas próprias comunidades tradicionais. A iniciativa, além de valorizar a cultura alimentar, gera renda direta para as famílias indígenas.
“Temos o orgulho do Acre ser o primeiro estado do país a comprar da agricultura familiar indígena”, destacou Aberson.

Mas manter viva a educação indígena em territórios isolados é um desafio constante. A logística é um dos maiores obstáculos, o transporte de materiais didáticos, alimentos e a formação de professores exigem esforço coletivo.
A vice-governadora Mailza Assis reforça o compromisso do estado em enfrentar essas dificuldades.
“O estado tem um olhar social e voltado para a população indígena. Temos juntado forças, da Secretaria de Meio Ambiente, da População Indígena, entre outras, com o apoio do governo federal, para atender melhor, de forma mais completa, a população indígena que tanto precisa”, afirmou.

Os pequenos guardiões do futuro
Entre risadas, desenhos e cantos, as crianças da aldeia seguem aprendendo. São elas as pequenas guardiãs da cultura Shanenawa, o elo vivo entre o que já foi e o que ainda será.
Naynawa, de apenas sete anos, é um desses guardiões. Quando não está na escola, ajuda a mãe a plantar macaxeira e milho, e conta do seu sonho quando for adulto. “Quando eu crescer, quero muito ser médico para ajudar as pessoas”, diz com timidez.
Nos olhos do pequeno, há o reflexo de um futuro possível, o de um povo que cresce sem deixar de ser quem é.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), o número de indígenas no Acre cresceu 80,3% em 12 anos, passando de 17.578 em 2010 para 31.694 em 2022.

Esse avanço é mais do que estatístico, é o sinal de que a educação, quando aliada ao respeito e à cultura, é capaz de fortalecer identidades e transformar vidas.
Na Aldeia Morada Nova, ensinar é mais do que transmitir conhecimento, é semear o orgulho de pertencer.

Para a equipe da TV Norte, que conheceu de perto a realidade do local, a história do povo Shanenawa, garante que, mesmo com o passar do tempo, o canto do pássaro azul continua ecoando pelos rios e florestas do Acre, lembrando ao mundo que a educação é o caminho mais bonito para manter viva a tradição de um povo.