O fim de semana terminou em luto para a cena cultural de Roraima. O artista e ativista indígena Daniel dos Santos Pereira, conhecido artisticamente como Dam Kuy A’ki, foi encontrado morto neste domingo (5), após desaparecer nas águas do balneário Curupira, localizado no bairro Paraviana.
O jovem, que havia desaparecido no sábado (4), era reconhecido por transformar a arte em instrumento de resistência e expressão da identidade indígena.
Raízes e representatividade
Filho da comunidade Três Corações, no município de Amajari, Dam pertencia ao povo Macuxi e conquistou espaço como uma das vozes mais fortes da nova geração de artistas indígenas.
Em resumo, Dam unia talento e engajamento social em cada projeto que abraçava, levando às ruas, aos palcos e às universidades o orgulho de suas origens.
Acadêmico do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e presidente do Centro Acadêmico, Dam via a arte como extensão da própria existência.
Em entrevistas, ele costumava afirmar que criar era também uma forma de lutar e ensinar, especialmente para sua filha.
Da matemática à arte: um reencontro com as origens
Antes de mergulhar nas artes, Dam estudou matemática, mas descobriu nas tintas, nas canções e nas performances um novo modo de compreender o mundo.
Por isso, durante a pandemia, ele decidiu trilhar o caminho artístico e usá-lo como forma de resistência cultural.
“Foi na arte que encontrei minha voz. Entendi que podia lutar e inspirar outros a reconhecerem suas próprias raízes”, dizia em uma de suas falas públicas.
A força de uma canção
Dam era também vocalista da banda Kruviana, projeto vinculado ao Instituto Insikiran da UFRR. Desde 2023, sua presença no grupo transformou a sonoridade da banda, marcada por letras que exaltavam a força dos povos indígenas, o respeito à terra e a espiritualidade ancestral.

Com carisma e consciência política, o artista se destacou em festivais e eventos culturais. Em 2024, por exemplo, foi eleito Mister Indígena Boa Vista, título que usava para fortalecer o diálogo sobre representatividade e diversidade étnica.
Além disso, integrava coletivos artísticos como o Plac e o Macu-X Cultural, onde promovia oficinas, debates e apresentações voltadas à valorização das identidades indígenas.
Luto e homenagens
A notícia da morte de Dam Kuy A’ki gerou grande comoção. A banda Kruviana lamentou profundamente a perda do companheiro e destacou seu papel essencial na trajetória do grupo.
“Dam foi mais do que um cantor. Foi uma ponte entre a arte e a ancestralidade. Seguiremos levando adiante tudo aquilo em que ele acreditava”, declarou o grupo em nota oficial.
Ademais, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) também manifestou pesar, exaltando o compromisso de Dam com a defesa dos direitos dos povos originários e sua dedicação à cultura Macuxi.
“Seu legado permanece como inspiração para quem acredita na arte como instrumento de resistência”, afirmou a nota.
Universidade em silêncio
Em homenagem ao acadêmico, a UFRR suspendeu as atividades da Semana de Artes Visuais, que ocorreria entre os dias 6 e 10 de outubro.
O curso divulgou mensagem de solidariedade à família e aos colegas, destacando a importância de respeitar o luto e celebrar o legado deixado por Dam.
“Este é um momento de acolhimento e união. Dam deixa um exemplo de sensibilidade, coragem e compromisso com a arte e com o seu povo”, diz o comunicado.
Um legado que ecoa
Dam Kuy A’ki partiu cedo, mas sua voz continua a ecoar nas músicas, nas pinturas e nas memórias de quem acreditava em um mundo mais diverso e justo.
Portanto a sua trajetória nos lembra que arte e resistência caminham lado a lado e que o canto de um só pode inspirar gerações inteiras.