O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) abriu um procedimento para apurar o sumiço de documentos, cartas, vídeos, revistas, registros de pesquisas e objetos que compunham o acervo do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes. O material, antes sob a guarda da Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, não é encontrado desde 2019, período em que o espaço passou por obras de reforma.
A investigação foi instaurada após um pedido formal do Ministério Público Federal no Acre (MPF-AC), que ressaltou a urgência em garantir a preservação do patrimônio cultural associado ao legado do acreano. O caso será conduzido pela 1ª Promotoria de Justiça Especializada de Habitação e Urbanismo e de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural.
Segundo o MPF, não há registros oficiais que indiquem para onde a coleção foi levada ou qual teria sido seu destino, fato que levanta preocupações quanto ao risco de perda definitiva de um acervo considerado essencial para a memória da luta socioambiental no Brasil.
Ângela Mendes, filha do líder seringueiro, declarou que o conjunto representa parte fundamental da história construída em torno de seu pai, que colocou o Acre e a pauta ambiental no cenário global.
“Eu me sinto muito incomodada com isso. Acho uma irresponsabilidade muito grande, porque se trata de história, de memórias e sem isso, ficamos sem expectativas de futuro. Faz parte do povo acreano e é a vida do meu pai, que foi tão relevante e continua sendo tão importante para as discussões acerca da pauta climática. Do próprio movimento que emergiu das matas de Xapuri e que foi para o mundo”, afirmou.
O ofício do MPF, assinado pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão, Lucas Costa Almeida Dias, foi enviado ao MPAC com a recomendação de adoção de providências urgentes. O documento ainda adverte que a ausência de informações sobre a localização e conservação dos itens pode comprometer a memória coletiva e provocar prejuízos irreparáveis à sociedade acreana.
Saiba quem foi Chico Mendes
Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, nasceu em Xapuri e se tornou símbolo mundial da defesa da Amazônia. Como líder sindical, organizou os seringueiros em movimentos de resistência contra o desmatamento e defendeu a criação das reservas extrativistas, modelo que alia a preservação da floresta à sobrevivência das comunidades locais.
Sua luta incomodou grandes proprietários de terras, resultando em constantes ameaças. Em 22 de dezembro de 1988, apenas uma semana após completar 44 anos, o líder foi assassinado nos fundos de sua casa, em Xapuri. O crime, que teve grande repercussão internacional, levou à condenação de Darci Alves Pereira e de seu pai, Darly Alves da Silva, apontados como mandantes e executores.
Pouco antes de sua morte, o ambientalista havia recebido o prêmio Global 500, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), reconhecimento que consolidou sua relevância como defensor da floresta e dos povos da Amazônia.