O governo brasileiro pretende firmar uma parceria com a estatal russa Rosatom para desenvolver Pequenos Reatores Modulares (SMRs), ou seja, reatores nucleares, no país, incluindo versões flutuantes.
A Rússia já utiliza essa tecnologia. Além disso, o uso comercial dela pode ampliar o acesso à energia em regiões isoladas como a Amazônia e substituir usinas térmicas a óleo, ainda comuns no Norte do país.
Quem fez o anúncio foi o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, durante viagem à China. De acordo com ele, o presidente russo Vladimir Putin autorizou pessoalmente a Rosatom a acelerar o acordo com o Brasil. A cooperação começará com um diagnóstico do potencial energético brasileiro.
Silveira destacou que apenas 26% do subsolo nacional foi mapeado, mas o Brasil já possui a sétima maior reserva de urânio do mundo. Para o ministro, o país tem “uma Petrobras em reservas de urânio” e deve aproveitar esse potencial.
Reatores nucleares atendem alta demanda energética
Os SMRs têm capacidade de geração entre 20 e 300 megawatts. Além disso, é possível instalar os reatores nucleares próximos aos centros de consumo.
Os reatores nucleares conseguem atender áreas com alta demanda energética, como grandes indústrias e datacenters. De acordo com Silveira, essa tecnologia limpa poderá substituir térmicas poluentes no Amazonas, gerando energia diretamente onde é necessária.
Rosatom
A Rosatom é a única empresa do mundo com reatores nucleares em operação comercial. Em 2020, inaugurou a primeira usina nuclear flutuante do planeta, no Ártico. O projeto, embora criticado por ambientalistas como o Greenpeace, substituiu uma central obsoleta e uma termoelétrica a carvão.
De acordo com estimativas da empresa russa, até 2035 a Amazônia poderia receber 12 reatores com capacidade de 0,6 GW. Outros 10 reatores flutuantes poderiam ser instalados na costa do Nordeste, somando mais 0,5 GW. Juntos, representariam quase metade da atual capacidade nuclear brasileira.
O Brasil já domina o ciclo de enriquecimento de urânio até 4,25%, mas ainda envia o material ao exterior para conversão. A Rússia agora é parceira nessa etapa e assinou contrato para processar 275 mil quilos de urânio brasileiro até 2027. O urânio enriquecido russo pode ser até 50% mais barato que o de concorrentes ocidentais.
A matriz elétrica brasileira é 85% renovável, mas a energia nuclear representa apenas 1,2%, vinda de Angra 1 e 2. No entanto, a região amazônica ainda depende de geradores a diesel e até de energia importada da Venezuela, como é o caso de Roraima.
Silveira também voltou a defender a retomada das obras da usina de Angra 3, que está 65% concluída e envolvida em escândalos. A Rosatom demonstrou interesse no projeto, mas aguarda decisão do governo.
A parceria com a Rússia foi discutida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita recente a Moscou. No mesmo giro internacional, Lula seguiu para a China com uma comitiva de ministros, entre eles Silveira, reforçando o foco na cooperação energética e na exploração de minerais estratégicos.