Indígenas do Amazonas processam New York Times por acusação de ‘vício em pornografia’

Redação Portal Norte

A tribo indígena Marubo, composta por cerca de 2 mil pessoas e localizada no Vale do Javari, na Amazônia brasileira, entrou com um processo por difamação contra o jornal The New York Times (NYT).

A ação, movida em um tribunal de Los Angeles, acusa o veículo de retratar de maneira sensacionalista e preconceituosa a comunidade indígena, após uma reportagem que abordava a chegada da internet à aldeia.

O processo, que pede uma indenização de pelo menos US$ 180 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão), também cita os portais TMZ e Yahoo por amplificarem e distorcer o conteúdo original, transformando o tema em um espetáculo midiático.

Reportagens sobre indígenas do Amazonas

Conforme o documento judicial, a reportagem publicada pelo NYT em junho de 2024, assinada pelo chefe do escritório do jornal no Brasil, Jack Nicas, apresentou o povo Marubo como “uma comunidade incapaz de lidar com a exposição básica à internet”, ressaltando que “os jovens indígenas haviam sido consumidos pela pornografia”.

“As declarações não eram somente de difamação, mas transmitiam ao leitor que o povo Marubo tinha pouca moral”, diz a ação movida na última quinta-feira (22).

Jornal The New York Times – Foto: Associated Press.

“Tais representações atacam diretamente o caráter, a moralidade e a posição social de um povo, sugerindo que lhes falta a disciplina ou os valores para se adaptarem ao mundo moderno”, completa.

Em declaração à agência Associated Press (AP), um porta-voz do The New York Times defendeu a publicação: “Isso é uma leitura parcial deste artigo […] Pretendemos nos defender contra o processo”.

Vício em internet e pornografia

A reportagem do NYT narrava como a comunidade estava lidando com o serviço de internet via satélite da Starlink, empresa do bilionário Elon Musk, destacando desafios como adolescentes excessivamente conectados aos celulares, grupos de bate-papo cheios de fofocas, redes sociais viciantes, interação com estranhos online, videogames violentos, golpes, desinformação e menores acessando pornografia.

Um dos trechos citados no processo aponta que “jovens estavam compartilhando vídeos explícitos em conversas em grupo, um acontecimento impressionante para uma cultura que desaprova beijos em público”.

Apesar de o NYT não ter feito outras menções à pornografia, o tema acabou ganhando grande repercussão em outros veículos.

O TMZ, por exemplo, publicou a manchete: “A conexão de Elon Musk com a Starlink deixa uma tribo remota viciada em pornografia”. O portal Yahoo também teria contribuído para reforçar essa versão.

Outra matéria e insatisfação

Em meio à repercussão negativa e à polêmica gerada, o The New York Times publicou uma nova matéria intitulada: “O povo Marubo não é viciado em pornografia”.

Matéria sobre indígenas do Amazonas – Foto: Reprodução/NYT.

No texto, o jornal afirmou que “não havia nenhuma informação que sugerisse isso no artigo do The New York Times”, tentando refutar as interpretações mais sensacionalistas da mídia.

Entretanto, segundo os Marubos, a publicação foi insuficiente. O processo afirma que, “em vez de emitir uma retratação ou um pedido de desculpas, a publicação subsequente minimizou a ênfase do artigo original na pornografia, transferindo a culpa para terceiros”.

Por fim, o processo ainda questiona a conduta do jornalista Jack Nicas, alegando que, embora tenha sido convidado a permanecer uma semana na aldeia, ele ficou menos de 48 horas.

“Tempo suficiente apenas para observar, compreender ou interagir respeitosamente com a comunidade”, reforça o documento.