Manaus ocupa atualmente a posição de capital com o menor percentual de pessoas com diploma de ensino superior no país.
De acordo com dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 12,97% da população amazonense com 25 anos ou mais concluiu o ensino superior.

No Brasil, a média é de 19,8%, o que coloca o Amazonas em uma situação preocupante em relação ao acesso à educação superior.
Apesar de o estado ter um índice de alfabetização superior à média nacional (93,06% contra 93% no país), os desafios para a conclusão do ensino superior são significativos.
A baixa taxa de formação universitária é um reflexo de problemas estruturais, como dificuldades socioeconômicas, barreiras logísticas e a falta de políticas públicas voltadas para a realidade da região.
Desafios no acesso ao ensino superior
A Doutora em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e especialista em didática e legislação do ensino superior, Kelen Marcião, destaca que os desafios para o acesso à universidade são múltiplos e complexos.

“Primeiro, as pessoas, principalmente de baixa renda, precisam entender a importância do ensino superior e como isso pode impactar diretamente na qualidade de vida delas e de suas famílias”, afirma.
Ela ressalta que muitas vezes o ensino superior é visto apenas como uma forma de aprender uma profissão, mas seu papel vai além.
“Ele forma um espírito humano mais culto, mais crítico, com a possibilidade de dialogar de forma menos invisível com a sociedade. Ele te dá uma voz, te permite ver as coisas sob outros ângulos”, disse.
Kelen também aponta que o ensino médio e fundamental não preparam os alunos para enxergar o ensino superior como um projeto de vida.
“Essa barreira cultural é a primeira que precisamos derrubar: mostrar que todos são capazes de cursar uma faculdade”, diz.
Barreiras geográficas e socioeconômicas
Além das questões culturais, a coordenadora destaca que as barreiras geográficas e socioeconômicas são grandes obstáculos.

“O ensino superior historicamente não foi pensado para a classe trabalhadora. Cursos presenciais em horários incompatíveis com a jornada de trabalho, custos adicionais com transporte e alimentação dificultam a permanência de quem mais precisa”, explica Kelen.
No Amazonas, onde muitas comunidades vivem em áreas remotas, o acesso às universidades é ainda mais difícil. Kelen reforça que, embora haja vagas e opções de financiamento, como o FIES e o Prouni, é necessário avançar na oferta de cursos mais flexíveis e políticas de assistência estudantil eficazes.
“Falta, por parte do Estado, políticas públicas que atendam às necessidades dos alunos trabalhadores e das populações mais vulneráveis”, destaca.
Desigualdades raciais e indígenas
O Censo 2022 também revela disparidades raciais no acesso ao ensino superior. Enquanto 25,8% dos brancos com 25 anos ou mais possuem diploma universitário, apenas 11,7% dos negros alcançaram o mesmo nível de formação.
Apesar do avanço nas últimas duas décadas (em 2000, apenas 2,1% dos negros tinham ensino superior), a desigualdade persiste.
Entre a população indígena, a situação é ainda mais crítica. Apenas 8,6% dos indígenas com 25 anos ou mais concluíram o ensino superior, e a maioria não terminou nem o ensino fundamental.
No Amazonas, estado com a maior população indígena do país, a participação dessas comunidades na educação superior segue muito baixa, refletindo a falta de políticas específicas para inclusão.
Qualidade do ensino superior no Amazonas
Kelen Marcião ressalta que a qualidade do ensino superior no Amazonas não é o problema. No entanto, ela reforça que é preciso ampliar o acesso e a flexibilidade dos cursos para atender às necessidades dos alunos trabalhadores e das populações mais vulneráveis.
“Temos faculdades muito boas, ranqueadas entre as melhores do país. A regulação e fiscalização garantem que os cursos atendam aos padrões nacionais”, ressalta.